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O rolo do enrolo dessa enrolação desenrolada

Era um rolo que estava rolando, até que desenrolou ao ponto de enrolar até não saber se haveria o que enrolar.

Ah, era tanto rolo que pensei que seria enrolado para desenrolar e é exatamente o que está ocorrendo. Aliás, ando até enrolando para conseguir rolar esse rolo outra vez para não desenrolar tão cedo, ou até desenrolá-lo por inteiro para não ter mais o que ser enrolado.

E talvez,  eu esteja aqui procurando a ponta do rolo pra ver ser me desenrolo de vez desse enrolo que já não sei se rola, enrola ou desenrola. 

Enrolei meu cérebro chegando ao ponto de não saber nem mais de que enrolações ando enrolando em letras que parecem formar um rolo na minha cabeça e alguns efeitos enrolados n’alma. 

Joaquina O’Hara

Suas saudades são tão rasas que já não me afogam mais. São tão frágeis que não me doem os ossos. Suas saudades medem esforços, só te movem os dedos para escrever “saudades”, mas não te movem as pernas.

O que andas fazendo? Aumentando e acumulando essa tal de saudades? Ou apenas querendo fazer com que eu me iluda? Porque eu já não me deixo ser iludida. De você, eu só creio vendo. 

Eu não queria que assim fosse, mas é assim que deve ser mesmo. Devo preservar o pouco de sanidade que ainda tenho em mim. 

Então, não me venha com buquê de saudades, porque eu não gosto de flores cortadas em seus caules e principalmente de saudades. Não me venha se é para dizer sempre as mesmas coisas e não fazer nada.

Joaquina O’Hara

Eu te trago um copo cheio de vísceras da cor do que me fizeste sangrar. Trago espinhos dos quais me machucaram os dedos quando tentei de segurar. Mas não eras rosas, eras cacto. Sugavas minhas energias.

Fodeste-me mais do que suas prostitutas. Abristes minhas pernas e as quebrou. E no meu peito deixastes marcas de dentes caninos. Deixastes constelações de hematomas, sim isso é possível. 

Tocou minha pele como se fosse tua. Eu acreditei que eras meu. Mas nunca destes-me nada além de tuas vaidades e caminhos rápidos de escapatória do que chamam de realidade. 

És filho de padre. És um fruto proibido. Eu já me contaminei. Eu me atirei e dissestes que me segurarias. 

Pulei para fora deste navio com minhas próprias pernas, nadei até onde pude. Mas agora que me encontro quase afogada nesta maré alta, esqueces das palavras que um dia me escrevestes. 

E esses olhos castanhos já não me iludem quando passam a serem verdes sob as luzes das ruas. Essa tua postura de homem de ferro, não me engana, mas te enganas e te corrompes tentando esconder cada vez mais teu frágil órgão. 

Sabias que poderias me contar suas fraquezas, sabíamos que elas eram fortalezas perto das minhas. Sabíamos que nos seguraríamos. 

És um estulto e eu mais ainda. E desse fim, talvez eu já sabia e tu, muito mais.

Joaquina O’Hara

Cérebro meu eu

Lendo e relendo coisas que talvez nunca tenham um valor intelectual.

Como essa massa tão leve e pequena pode guardar tanta coisa? São minhas memórias, meus anseios, medos e desejos.

Eu parei de culpar o tal do coração. É que tudo, tudo, sem exceção, surgiu aqui entre meus ouvidos, entre meus ombros e raízes.

Mas isso vai passar como eu digo para tudo? De acordo com o senso comum, talvez só com uma grande pancada. Porém, não rebobina. Só apaga, e talvez nem pra sempre. Só dá o gostinho de renovação – ou perda – e já tudo volta.

É meu e não tem como ser de outro alguém. É meu, e mesmo que saia deste corpo será meu. É eu. Sou quem vive ali e não há maneiras de ter outro eu, justamente por este ser meu cérebro que logo coordena tudo, que logo já vai perdendo a sanidade de pouco a pouco, porém rápido.

Joaquina O’Hara 

Mas nisso, tudo vai e volta. Sempre. Eu nasci pra estar nessa rota de ir e voltar.

Meus pés deram três passos cansados, mas a minha mente viajou três quilômetros sem nem se cansar. 

Viajei sem nem lembrar para onde eu estava indo. Olhei as nuvens e já não sabia se era eu que me movia rápido demais ou se era as nuvens, ou talvez ambas. 

Cocei o ouvido com meu dedo indicador, pra ver se essa pressão da atmosfera sairia logo, antes de eu me perder totalmente na mesma. Nessas coisas da minha vida, eu sou tão fraca, tão avião de papel.

Eu viajo sem querer saber o desembarque, sem saber quanto tempo durará. Eu viajo sem nem perceber, sem nem saber se isso me faz bem ou mal.

Joaquina O’Hara

Ela era de leão e ele tinha 16.